« É a própria miséria que é uma violência. Se a miséria acabar a paz ocupará o seu lugar. »

As pessoas muito pobres continuam ainda a ser acusadas de cometerem as violências das quais a sociedade precisa de se proteger: por exemplo, as autoridades fazem promulgar leis para afastarem aqueles que mendigam e os que vivem na rua, e para expulsarem quem vive em certos terrenos sem para isso ter uma licença expressa. Todas estas pessoas são pois discriminadas por causa da sua pobreza.

Por meio desta nova conversa nós pretendemos trocar ideias sobre esta violência sofrida pelas pessoas extremamente pobres, para assim compreendermos o seu papel, juntamente com outros atores, na construção da paz.

De que modo é que a miséria é uma violência?
O que é que considera como mais violento na miséria, particularmente naquilo em que vive ou no que outros vivem e a que já assistiu? De que modo tenta resistir, só ou acompanhado, à violência da miséria?

A que paz aspiramos nós?
O que significam para si as expressões “a paz”, “ter paz” ou “não ter paz”?
Para que paz (da sua família ou de outras pessoas) deseja contribuir?

Um comentário sobre esta discussão

O Movimento ATD Quarto Mundo está a chegar ao fim de um trabalho de reflexão, conhecimento e análise, que durou três anos e se realizou em várias regiões do mundo. Esse trabalho permite a renovação dos nossos conhecimentos sobre aquilo que constitui a vida dos mais pobres, já que os mais pobres que têm trabalhado connosco são justamente 'atores desse conhecimento'. Os seminários e esses grupos de 'atores de conhecimento' reuniram mais de mil pessoas de 25 países diferentes. Poderão ler mais abaixo alguns excertos das atas desses encontros a fim de dialogarmos juntos sobre eles.

Tirado da Carta da Delegação Geral : Notícias do mês decorrido e perspetivas, Dezembro de 2011 

“A miséria é uma porção de injustiças e de violências que nos caem em cima”

“Quando houve cá a conferência da francofonia, obrigaram-nos a sair de onde vivíamos e queimaram as barracas que nos abrigavam. Mandaram-nos para uma espécie de fosso, um buraco numa pedreira, e na estação das chuvas a água sobe-nos até aos joelhos. Estamos todos muito deprimidos.” (Madagáscar)Seminário de Grand-Baie, Ilha Maurício – 2009

“A violência para com os pobres : romper o silêncio”

“Muitas vezes, por falta de coragem ou de confiança, há pessoas que dizem : Falar da minha vida ? Nem pensar, seria ainda pior se depois fizessem troça de mim. Pois eu era uma dessas pessoas. (…) Temos que acabar com esse silêncio”. (Guatemala)Seminário de Lima, Peru – 2010

“A miséria é uma violência : vamos falar pela paz”

“A demolição das nossas casas é uma violência. Traz consigo a fome. Não podemos trabalhar por causa dessa demolição quotidiana. E é uma violência porque nos leva a pensar coisas ruins sobre os trabalhadores que vêm demolir.(...) Quando estamos de barriga vazia, não vemos claramente as coisas. Até disse à minha mulher : se não tivesse fé em Deus, quando fico cheio de raiva era capaz de dar uma facada no chefe da equipe de demolição.(...) A fome ! É por causa da fome que podemos ser levados a ser violentos. E tudo isto por causa dos ricos que são donos da autoridade e que não nos compreendem”. (Filipinas)Seminário de Frimhurst, Reino Unido

“As nossas vidas são feitas de violência, temos que lutar por tudo”

“Quando há pessoas que nos faltam ao respeito falando de nós com expressões como 'casos sociais', 'mãe desnaturada', 'incapaz', 'inútil', isso mostra que nos julgam mal, que ignoram as dificuldades da nossa vida. É então que sentimos a violência da discriminação, de sermos ignorados, de não sermos tratados como os outros seres humanos. Todas essas violências quotidianas são como maus tratamentos que se gravam em nós. Há uma violência gravada para sempre em nós, que impede a formação da nossa identidade”. (França)Seminário de Pierrelaye, França – 2011

“É a própria miséria que é uma violência. Se a miséria acabar, a paz ocupará o seu lugar”

“Temos ONGs (Organizações Não Governamentais) que nos apoiam, que trazem muito dinheiro, que trazem muitas coisas, mas não servem para nada. Elas não podem lutar contra a miséria nem contra a pobreza porque não conhecem as pessoas com quem tratam. Elas vão ter com os mais inteligentes, separam as pessoas e acabam por criar violência.” (Senegal)Seminário de Dacar, Senegal – 2011