Yayo eza yayo te
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O Padre Peter E. acompanha, de segunda à sexta-feira, um certo número de jovens num Centro de Formação em Mahagi. Passa todos os sábados na prisão com “os seus irmãos feridos“, por vezes com alguns jovens do Centro.

A prisão é um mundo com os olhos cheios de lágrimas. Na prisão vemos outra realidade da vida humana que sofre lá fechada. Foi lá que encontrei o homem abatido, o homem abandonado, o homem esquecido. Quando lá estou sou como um irmão que tenta transmitir a alegria de viver e a paz, apesar de tudo o que os levou até lá. Tento estar presente para os escutar, para lhes dar coragem, para que eles aceitem a sua situação e para que a vivam de um modo positivo.

O grande problema da prisão é a falta de comida e de água. Eles comem mal. Dependem da generosidade dos que os visitam : pais, amigos ou parentes, que chegam às vezes com comida para um deles. Mas essa comida não é nunca monopolizada por aquele a quem vinha destinada : ela pertence a todos. Alguém escreveu na parede do dormitório : YAYO EZA YAYO TE (em lingala : o que veio para ti é de todos nós).

Num terreno ao lado, onde eles não têm o direito de ir, arranjei-lhes uma horta para eles terem alguma coisa para comer. Plantei milho, feijão e cebolas, graças às sementes que um amigo me deu.

Há muito que tinha o desejo de partilhar um dia uma refeição com aqueles presos e no dia 8 de dezembro esse sonho realizou-se graças a uma amiga que me deu dinheiro para lhes fazer um almoço. Fui então à prisão com alguns jovens do Centro.

Quando anunciei a novidade, o ambiente mudou inteiramente. Que grande festa ! Um dos jovens tinha uma embalagem de peixe salgado (makayabo), o que provocou a reação de um dos presos : “Atambisi“ (“e há até peixe !”). Há muito que muitos deles não tinham comido daquele makayabo. Pularam de alegria quando lá viram o peixe. E começaram a prepará-lo com os nossos jovens : foi uma grande descoberta para quem não sabia nada sobre a prisão.

Essa refeição marcou-nos a todos, foi como uma festa de Natal dentro da prisão. Houve música, futebol, jogos de cartas. Quando os presos cantaram, exprimiram o seu magnificat, cheios de alegria e gratidão por aquele dia...
Houve um que disse : “Padre, agradeço-lhe do fundo do coração, acabamos de passar dois dias sem comer e achávamos que também não comeríamos hoje, achávamos mesmo, mais uma vez obrigado.“

Então pensei na nossa generosa amiga e naqueles jovens : todos juntos contribuímos para dar mais vida àquele mundo e para diminuir a miséria naquele lugar.

Pe. Peter E.
República Democrática do Congo

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