UMA FAÍSCA DE MIM...
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Meu pai, homem do campo, nos breves contatos com uma professora, aprendeu apenas a escrever o seu nome. Minha mãe, também, do campo, estudou até a 4ª série do primário, como antes se dizia.
Ensinaram-me a contar os grãos de milho e feijão para plantar quando a chuva caia na terra seca do nordeste brasileiro. Mas, naquelas pequenas lições para plantar o milho e o feijão, ensinaram-me, sobretudo, que a terra, a seca, a água, as sementes, o estudar ou não, a partilha, a colheita, tudo é questão de direito, de justiça e de muita luta.
Minha mãe, com apenas aquela escolaridade, retirava da mesa os pratos do almoço e transformava o espaço em sala de aula. As crianças do campo, nossas vizinhas, recebiam dela as lições de uma mestra que, para além das cartilhas que vinham da prefeitura municipal, ensinava que todo conhecimento deve ser partilhado.
O que meus pais talvez não soubessem, naqueles gestos de simplicidade e compromisso solidário, era que colocavam no coração de cada filho e cada filha a sede de justiça e a paixão pelo conhecimento que transforma e constrói dignidade.
Quilômetros por dia (a pé) para chegar até a escola, mas quilômetros por dentro de estímulo e resistência na luta pelos Direitos.

Maria do Rosário de Oliveira Carneiro.