Sua obra não desapareceu com ele
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Fábio Alves dos Santos visita pela primeira vez o Movimento ATD Quarto Mundo em julho de 1999, em Méry-sur-Oise, acompanhado pelo Padre Pierre Leboulanger, que o apresenta como « advogado, professor de direito na PUC (Universidade Católica) de Belo Horizonte, vice-presidente du Conselho do Estado de Minas Gerais encarregado dos direitos humanos e, para além disso, militante ativo na luta pelo alojamento e pela Terra». Desde a sua primeira carta, em dezembro de 1999, Fábio afirma sentir-se « profundamente identificado com o ideal » do Movimento. Fala do « suporte jurídico e político » que dá a 150 famílias em risco de serem expulsas de suas casas, de seus « amigos sem-casa, do povo da rua e dos moradores dos prédios ». Fala também de « seus irmãos encarcerados »...
Faleceu bem jovem, com 59 anos, mas sua vida foi rica e proveitosa, continuando a servir de exemplo a muita gente. Pouco tempo antes de morrer, enviou-nos um resumo de sua vida :

Um registro sintético de uma vida: Fábio Santos

Nasci na cidade de Milagres, Ceará, na região do Cariri. Ali temos duas cidades de porte médio: Crato, sede da Diocese, e Juazeiro do Norte, terra do Pe Cícero Romão Batista.
Nasci e cresci em um ambiente extremamente religioso, onde as devoções católicas predominavam sobre as orientações doutrinárias do velho e conservador Pe Joaquim Alves de Oliveira. A devoção à padroeira, Nossa Senhora dos Milagres, ao Pe Cícero e aos santos impregnavam o cotidiano de todo o povo. Em casa, porém, estas práticas devocionais não eram tão fortes.
Ainda cedo comecei a estudar no colégio das Filhas de Santana. Freiras de origem italiana e muito conservadoras. Aos dez anos de idade vi acontecer o golpe militar de 1964 que contou com todo o apoio da Paróquia e das Filhas de Santana. O anticomunismo nos era pregado dia e noite.

Nascido em uma família de classe média, neto do Coronel Raimundo Alves que, por mais de vinte anos, foi o prefeito da cidade.
Na família, os pobres estavam presentes como trabalhadores. Se, porém, mostravam-se irresignados com alguma coisa, eram tidos por preguiçosos ou revoltados. Contudo, se batiam à porta, rogando alguma esmola, sempre eram recebidos como objeto da caridade.
No colégio das freiras havia, igualmente, essa sensibilidade para uma caridade mais assistencialista aos pobres. Ainda aos dez anos, sob a orientação de Ir Oswalda de Araújo, minha catequista, todos os sábados estava eu a ajudar, no colégio, a distribuir leite em pó, óleo, farinha de milho... que nos eram enviados pela Aliança para o Progresso, financiada pelos Estados Unidos.
A semente de solidariedade aos pobres, porém, fora plantada com esmero.
Embora sem muita compreensão do fenômeno político da época, sempre me vi envolvido em assuntos da política. Minha casa era palco de reuniões com políticos e hospedava deputados e candidatos a cargos políticos vindo de Fortaleza, capital do Ceará.
Embora de uma família de treze filhos, tínhamos acesso a jornais e revistas semanais, como O Cruzeiro. Também recebíamos Seleções, órgão de divulgação ideológica dos Estados Unidos. A tônica sempre era o anticomunismo.
No colégio tínhamos acesso a uma biblioteca que nos permitia a leitura contínua de muitos e muitos livros. Em casa, dentre outras obras, tínhamos as obras completas de Jorge Amado que nos abriam para uma mentalidade mais crítica da organização social vigente na nossa terra.

Aos quatorze ou quinze anos de idade comecei a tomar conhecimento dos livros produzidos por Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife desde abril de 1964. Por incrível que pareça as obras de Dom Hélder ou sobre Dom Hélder me eram repassadas por Dona Letícia Lins, esposa de um chefe político da cidade e próspero industrial.
Em 1970 fui estudar no Juvenato Marista de Apipucos, no Recife, para dar início ao 2º Grau de escolaridade. Ali comecei a ter acesso a todos os pronunciamentos de Dom Hélder que eram multiplicados pelo mimeógrafo, vez que nada do que ele falava podia ser reproduzido pela imprensa.
Em 1971 e 1972, ... ler mais

Fábio faleceu no dia 19 de outubro de 2013. Sereno e em paz até ao fim, dando força para os que o rodeavam.
Sua obra não desapareceu com ele e, em Belo Horizonte, continua havendo muita gente trabalhando com os que estão em risco de serem expulsos de suas casas e comunidades, com os catadores de papel, com os moradores de rua e com todos aqueles que são rejeitados pela sociedade e pelos poderes públicos.
Entre seus continuadores está sua filha Cecília Reis, a advogada Rosário de Oliveira Carneiro, Frei Gilvander… e muitos outros ! Continuamos em contato com eles, que nos vão dando notícias de seus combates. Sempre que eles nos enviam um mail, um artigo, uma vídeo, é como se Fábio voltasse para nos fazer uma visitinha...

«Deu para sentir que o povo está acordando»

Rosário, advogada popular, na Ocupação Barreirinho, Ibirité/MG: Luta constitucional.