Quando descobri mundos diferentes, algo acordou dentro de mim
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Carta aos Amigos do Mundo 98

Chamo-me Salwa e sou professora. Sempre quis que as crianças desfavorecidas pudessem ter acesso à cultura.

Em 2009, tive a sorte de descobrir 'Tapori' uma corrente de amizade entre crianças animada por ATD Quarto Mundo, que lhes permite criar laços e partilhar histórias de vida e de coragem. 'Tapori' revelou-me a importância da leitura para as crianças. Eu tinha trabalhado num centro cultural francófono e depois numa escola francesa, que eram lugares requentados por filhos de famílias favorecidas.

Em 2012, recomecei a ensinar numa cidadezinha do oeste do Egipto. Todas as tardes, voltando do trabalho, via crianças brincando na rua depois da escola. A única biblioteca fechava às 13h00. Quando pensei numa atividade de leitura com essas crianças fui falar a uma escola. Nas outras escolas, a informação foi passando de boca em boca.
Tinha marcado encontro com as crianças na biblioteca porque o diretor tinha arranjado um empregado disposto a vir abrir.
Para mim, era um desafio, pois era uma estranha naquela cidade.

Os habitantes não percebiam por que razão eu exercia aquela atividade de voluntariado. Animei-a duas vezes por semana durante 3 anos com crianças de 6 a 13 anos, às vezes 15. O atelier estava organizado em três partes: histórias, desenhos e jogos.
As crianças estavam sempre a pedir-me para lhes ler a história de "Joha". Todos aqueles contos apresentavam a vida com graça e ternura...

Aya, a filha da minha vizinha, vinha-me bater à porta para ir para a biblioteca comigo. Durante o caminho contava- me histórias e percebi depois que era ela que as inventava.
Fiquei muito contente vendo a que ponto o atelier lhe tinha desenvolvido a inteligência e a imaginação.
Ahmed, um rapaz de 15 anos deficiente mental, estava sempre a com os outros mas estava fora de questão pô-lo fora. Então, dei-lhe a responsabilidade de distribuir e de recolher os lápis e as folhas para ele se sentir útil.
Um dia, uma criança trouxe-me uma história que tinha pedido emprestada na biblioteca de sua escola. Estes ateliers eram para mim como sementes lançadas à terra: não sei o que elas darão mais tarde.

Em 2015, pude voltar a estudar e escolhi a especialização "educação e cultura": o despertar das crianças para a cultura para ajudar os que não têm meios para se cultivarem - na cultura em geral e na sua própria cultura.

SALWA I., EGIPTO