Para que as coisas mudem há que falar com todos
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Carta aos Amigos do Mundo 93

Na África do Sul, a Jean E. tem posto em prática com Afrika Tikkun um programa de educação, desde a primeira infância até à formação profissional dos jovens, nos townships (*) e nos bairros muito pobres do centro de Johannesburg onde se concentram pobreza e tensões sociais.

Afrika Tikkun constatara que os programas de apoio escolar e de ajuda às crianças muito pequenas não tinham previsto nada para as crianças deficientes, e que nenhuma escola queria acolhê-las. A ONG pediu então à Jean que criasse um programa para elas.
Ela começou por fazer um estudo muito alargado da questão. “Para que as coisas mudem há que falar com todos. Se só as pessoas com uma deficiência forem contatadas, os preconceitos dos outros não mudarão nunca“.
Jean constatou que as crianças deficientes e as suas famílias (sobretudo as mães) eram não só expoliadas dos seus direitos à educação, mas que, além disso, eram rejeitadas pela sua comunidade.
Num township, muitas vezes os pais sofrem uma pressão de suas famílias que lhes diz “O quê? Na nossa família não há deficientes. Essa criança não é tua. Tens que deixar essa mulher!“
Os primeiros pais que participaram no estudo juntamente com Jean adotaram uma abordagem comunitária. Iam à procura dos pais das crianças deficientes, contatavam-nos e ajudavam-nos a descrever a sua situação.

Como é que eles se sentiam? Qual era a situação da criança? (ia à escola? seguia um tratamento? ficava sempre em casa?) Estariam eles a par dos direitos que tinham? Que faziam eles para gerir a situação?
Eles podiam responder a cada pergunta através de desenhos: a mãe representava por gestos aquilo que sentia e a Jean desenhava. Os desenhos são muito expressivos e depois de os ver a mãe podia dizer “Sim, é isso mesmo que eu sinto, é o que eu sei, é a situação do meu filho.“
Feito todos os anos, este estudo vai mudando lentamente o modo de encarar as situações e os comportamentos. A ONG propõe um grupo de apoio semanal. Os pais dizem que o frequentam sempre que podem e que isso os ajuda a levantar a cabeça.
Várias mães de um destes grupos fundaram um infantário que acolhe crianças deficientes ou não. Elas explicam que o fato de crescerem juntas irá evitar mais tarde os preconceitos e a violência. No começo, as crianças sem deficiência mostram-se espantadas, mas depois descobrem e apreciam aquele ambiente diferente e protegem-se umas às outras.
Apoiadas pela Jean aquelas mães tinham apresentado um pedido no ministério da educação para que a escola pudesse abrir. E ela abriu à entrada do township e tem um enorme sucesso em toda a comunidade.
JEAN E. ÁFRICA DO SUL

(*) township = na África do Sul, a palavra designa zonas urbanas pobres com muito poucas infra-estruturas para onde os que não eram brancos eram levados à força no tempo do apartheid)

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