Ousar a participação dos mais excluídos, é modificar, todos juntos, o futuro
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Carta aos Amigos do Mundo 99

Por esse mundo fora, cada vez ouvimos mais pessoas em situação de grande pobreza que nos dizem, como um habitante do Burquina Faso : “Mesmo vivendo numa extrema pobreza, cada pessoa tem ideias. Se essas ideias não forem reconhecidas, as pessoas vão-se enterrando cada vez mais na pobreza.” Cada ser humano, quaisquer que sejam as suas condições de vida, observa o mundo, sente o mundo, pensa no mundo. O fato de viver na extrema pobreza dá-lhe uma visão única, uma abordagem única em relação a esse mundo.

Apesar disso, e cada vez constatamos isso mais vezes, essas pessoas não estão presentes nos lugares onde são tomadas as decisões que irão no entanto influir em suas vidas. Não estão presentes nos lugares onde são elaborados aos planos de desenvolvimento, como se elas não fizessem parte do mesmo futuro que os outros. Ninguém as interroga sobre a pertinência dos projetos, como se a sua experiência e a sua inteligência não bastassem para que elas pudessem transmitir uma opinião sensata.

A assembleia-geral das Nações Unidas veio lembrar nos Princípios Orientadores sobre a Extrema obreza e os Direitos Humanos, em 2012, que uma participação plena dos mais excluídos deveria ser uma prioridade absoluta. O manual que a isso se refere enuncia as condições que lhes permitiriam contribuir em todos os aspetos das nossas sociedades (acesso à saúde, à alimentação, ao alojamento, à educação, ao trabalho, aos meios de existência).

Vêem-se por toda a parte grupos e associações que vão ao encontro das pessoas mais rejeitadas para  que elas se atrevam a participar. Graças à nossa própria experiência, bem sabemos que, quando essas pessoas têm a oportunidade de fazer parte de um grupo em que se sentem livres de se apresentarem tal qual são e onde se sentem respeitadas, elas ousam falar, refletir, dar uma opinião. E é assim que toda uma comunidade revê o seu modo de encarar as suas prioridades, os seus métodos, os seus prazos. Não é só a grande pobreza que desaparece, é uma comunidade inteira que avança e se desenvolve.

Ousar a participação dos mais excluídos, é modificar, todos juntos, o futuro.

Isabelle Pypaert Perrin, Delegada Geral do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo

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