O Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Vitória
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O Padre Jardim Moreira, há muitos anos que é nosso correspondente e amigo. Mandou-nos hoje um resumo do trabalho que faz e dos problemas que enfrenta.

O Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Vitória apoia 150 crianças do centro histórico do Porto e ainda ”sem-abrigo, idosos e acamados”, mas enfrenta dificuldades diárias. E um desafio: manter a ligação aos jovens que, por volta dos 17 anos, abandonam a instituição.

Com cada vez mais gente a precisar de ajuda, aumentam as dificuldades da IPSS que vai conseguindo com esforço equilibrar o saldo económico.

“Nós servimos, por dia, cerca de 250 a 300 refeições quentes. Todo este cuidado é no sentido de minorar todas as situações de desumanidade e injustiça a que elas [os utentes do centro] estão votadas”, explicou o representante legal da instituição.
 

Há 37 anos com a missão de tomar conta “dos pobres dos mais probres”, o padre Jardim Moreira conta como o Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Vitória apoia 150 crianças da zona da Vitória, com 10 euros por mês.

“O que recebemos dos acordos estatais é relativamente pouco e, quanto mais crianças temos, mais os prejuízos aumentam”, explica o rosto desta IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social).

O centro precisa de encontar forma “de poder pagar aos técnicos” e arranjar “dinheiro para a parte alimentar”. “Para poder suprir esta diferença negativa, recorremos à participação do estado civil, com a campanha ‘Um Padrinho e Um Amigo’, que dura todo o ano, e outras pontuais, com o objectivo da recolha de alimentos específicos”, conta o pároco.

Quando chegou ao centro, recorda Jardim Moreira, não havia qualquer mecanismo solidário que desse resposta aos casos mais urgentes à época. “Quando eu tomei conta desta paróquia, não havia nenhuma resposta social para a situação e constatei que era umas das paróquias com maiores dificuldades de pobreza e abandono social, por isso, comecei por responder às questões mais imediatas, que era ir de encontro às crianças e aos idosos”.

Porém, explica o responsável, os apoios continuam a não existir. “Não há mais nenhuma instituição a trabalhar no terreno . Se não fosse eu e a paróquia a cuidar dos mais pobres dos pobres e era um abandono completo”, lamenta o padre.

A funcionar como ATL, o Centro Social Paroquial de Nossa Senhora da Vitória é uma segunda escola para os mais novos, onde eles são apoiados nos estudos e onde ficam até à hora em que os pais os vêm buscar, sempre por volta das 20h.

“As crianças estão aqui conforme o horário que têm nas escolas. Nós temos uma outra casa que funciona com crianças dos 18 meses aos 6 anos. Desde que as crianças estejam livres da escola ou não tenham escola vai uma funcionária buscá-las à escola, para que elas sejam acompanhadas no percurso para o centro”, conta Jardim Moreira.

“É uma forma directa de ajudar esta gente nova para não entrar em caminhos desviantes”, argumenta o padre, acrescentando que a IPSS tenta “criar laços com os jovens que deixam o centro” mas que nem sempre é bem acolhida.

Depois dos 17 anos, os jovens apoiados pelo centro seguem o seu caminho. No caso das raparigas, são, lamenta o padre Jardim Moreira, muitas as que regressam com gravidezes indesejadas. “Isto é um problema da educação sexual que têm ou não têm. Algumas [raparigas] imitam as mães e as avós e acham que isso é normal. Isto acaba por ser, um bocado, a pobreza hereditária de valores”, explica.

Centro Social Paroquial de Nossa Senhora da Vitória...

“Nós tentamos criar laços com os jovens que deixam o Centro, mas a receptividade é que não é muita. Muitos deles não têm emprego; outros, poucos, continuam a estudar; muitos outros entram num esquema de vida de economia paralela”, relata o padre.

Segundo explica Jardim Moreira, o objectivo do seu centro passa por “dar uma perspectiva de futuro às crianças e jovens que passam pela instituição”, mesmo que haja quem entenda que o que acontece é precisamente o contrário. “Ainda aqui há dias me disseram ‘o senhor padre está a trabalhar para a cadeia de Custóias’, ao que eu respondi ‘sou capaz de estar, porque senão fizesse isto iam para lá muitos mais”, conclui.