Neste sopro novo de Primavera
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As realidades complexas e sofridas dos tempos
que vivemos e a sua permanente mediatização e exposição
levam-nos muitas vezes a olhar para o lado
e a desistir de as enfrentar. Vivemos a circunstância
de uma opinião pública cansada do repetir diário de
notícias trágicas e descrente nas soluções propostas.
Por outro lado, avaliamos o grau de risco dos dramas
humanos existentes em função da sua maior ou menor
proximidade e capacidade de nos afetar no nosso dia-a-
dia. O drama humano dos efeitos do vírus do ébola
não passa de mais uma notícia que só se tornará real
no nosso quotidiano quando de nós se aproximar. Criamos
assim círculos de segurança e de bem-estar cuja
inalidade é a de preservar um estilo de vida que nos
garanta uma aparente felicidade. Olhamos para o lado
e desistimos dos que ainda vivem porque não queremos
carregar connosco as suas cruzes. Muitos e muitas estão
vivos mas para nós estão antecipadamente condenados
e mortos. O seu olhar já não nos interpela e os seus gritos
de tão repetidos soam indiferentes aos nossos ouvidos.
Bem perto de nós os idosos esquecidos nas urgências
dos hospitais ou abandonados a um dia-a-dia triste e
solitário constituem talvez a expressão mais visível e
cruel deste progressivo abandono.
Neste sopro novo de Primavera que a todos nos toma,
eis o apelo sempre renovado a não vivermos de acordo
com as normas do mundo, mas antes a transformarmo-nos
adquirindo uma nova mentalidade fraterna e solidária.

D. Jorge Pina Cabral, Igreja Lusitana, Portugal