MULHERES ORGANIZAM ATOS PARA DESCOLONIZAR
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Leiam este artigo, tirado do n° 31 da revista "Du levain pour demain", enviado por nossas correspondentes e amigas Auxiliaires du Sacerdoce :

Mulheres negras e indígenas do Amazonas, na Região Norte do Brasil, planejam fazer deste 2016 um espaço de discussões e de várias manifestações em torno dos temas racismo e descolonização na Amazónia.
Os temas, decididos em vários encontros de coletivos de representação de mulheres afro-ameríndias e caribenhas e do movimento indí­gena realizados entre o final do ano passado e o começo deste ano, pautam alguns dos eixos das lutas das mulheres amazónicas para esse período.
“Compreender as formas e o alcance da colonização em nossas vidas é uma tarefa árdua e de longa estrada. Por isso, queremos ver esse assunto em debate na cidade de Manaus”, afirma Francy Guedes, da Marcha Mundial de Mulheres no Amazonas e uma das coordenadoras do Fórum de Mulheres Afro-ameríndias e Caribenhas (FMAAC). É sobre a descolonização que as participantes do fórum estão realizando uma série de reuniões preparatórias para o 5º Encontro, em 25 de julho, em Manaus, capital do Amazonas, com participação de representantes de estados amazónicos e de países da Pan-Amazónia.

“Descolonizar para construir o Norte Afro-ameríndio e Caribenho” é o tema do 5º Encontro do FMAAC.

Neste mês de fevereiro, indígenas se reunirão em um encontro, em Manaus, para definir as ações públicas de enfrentamento ao racismo e ao preconceito contra os povos indígenas e a violência às mulheres indígenas. O encontro é um dos resultados da campanha lançada no ano passado pelo Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas e a União de Mulheres Indígenas da Amazónia Brasileira. A mobilização segue em duas direções: uma chamar a atenção da sociedade para tais questões e, outra, envolver os professores indígenas em ações concretas na sala de aula de combate ao racismo, ao preconceito e à violência. Nos dois casos, atua a cultura colonizadora / colonizante entranhada nas instituições, inclusive naquelas destinadas à formação, como as escolas. O discurso das media enquadra-se nesse ambiente atuando como reforço a um imaginário de naturalização do processo colonizador e das condutas coloniais. Reagir diante da naturalização de um processo de massacre cotidiano de pessoas e de silenciamento das culturas dos povos é, na opinião de Guedes, se dispor a estudar, perceber, compreender e agir sobre os mecanismos da colonização. “Estaremos na ruas denunciando essa condição que é forte no Amazonas”, promete Francy Guedes.

Descolonizar currículos
Ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos do Governo brasileiro, a pedagoga Nilma Lino Gomes, em artigo publicado em 2012, defende a descolonização dos currículos quanto às relações étnico-raciais e à educação: “a descolonização do currículo implica conflito, confronto, negociações e produz algo novo. Ela se insere em outros processos de descolonização maiores e mais profundos, ou seja, do poder e do saber”.
Para Nilma Gomes, “compreender a naturalização das diferenças culturais entre grupos humanos por meio de sua codificação com a ideia de raça; entender a distorcida relocalização das diferenças, de modo que tudo aquilo que é não-europeu é percebido como passado e compreender a ressignificação e politização do conceito de raça social no contexto brasileiro são operações necessárias a um processo de ruptura epistemológica e cultural na educação brasileira”.
Colocar o tema na ordem do dia dos movimentos, como querem fazer o Fórum de Mulheres Afro-ameríndias e Caribenhas e organizações parceiras do fórum “é um gesto concreto para animar cada área a pensar sobre a vigência colonial em nossas vidas manifestando-se em vários espaços e nas condutas”, observa Francy Guedes.

Desconferência
As reuniões preparatórias do 5o Encontro Afro-ameríndio e Caribenho para um encontro que está sendo chamado de desconferência, com rodas de conversas, atividades culturais e empodeiramento identitário. “Trabalhamos na perspectiva de realizar um 5° Encontro onde a participação seja mais efetiva e mais plural. Estamos animadas para nos contrapormos a modelos eurocêntricos dessas reuniões”, conta Elizângela Almeida, do Fórum Afro-ameríndio.