Mulheres Ciganas Universitárias
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Mudança: Cada vez mais raparigas de etnia cigana estudam para lá da primária. A tradição cede à crise das feiras, que obriga a novas competências. Projeto pioneiro levou este ano 11 jovens para a universidade

Teresa Vieira (TV), 26 anos, é estudante de Sociologia, no ISCTE, em Lisboa. “Tudo normal se ela não fosse cigana. Mulher cigana não anda sozinha, não conduz, não estuda além da quarta classe. Mulher cigana casa cedo, cuida da casa, dos filhos, do marido, vai para o mercado. Mas a tradição está a mudar, devagarinho. As feiras deixaram de dar dinheiro”. “As grandes superfícies destruíram o negócio (das feiras) e os pais perceberam que tinha de estudar. O meu pai confiou em mim e eu sou 100% certinha”. A necessidade de assegurar a retidão do comportamento é a marca da educação que teve, da etnia que tem. TV orgulha-se de ser cigana, mas a tradição não se orgulha de ela estudar. “Ninguém me atira pedras, mas eu não sou a mulher ideal para ninguém, nem a nora que alguém queira”, explica. “Mesmo sendo cigana 24 horas por dia, só porque ousou sair das saias da comunidade e misturar-se com a ‘comunidade maioritária’ e ‘ser mal vista’ por isso. Sente-se diferente de um lado e do outro.”

[...] Entrou para a Universidade em setembro de 2015, integrada no Opré Chavalé – “Erguei-vos Jovens”, em romani – o primeiro projeto nacional de integração de jovens de etnia cigana no ensino superior. Promovido pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, em parceria com a Associação Letras Nómadas, apresentou esta semana o balanço do grupo piloto: 11 jovens sub-30, seis rapazes e cinco raparigas, integrados em universidades de todo o país, terminaram todos o primeiro semestre com aproveitamento. Entre os cursos dominam a Animação Sociocultural e Serviço Social – querem ser mediadores dentro da comunidade -, mas há também Eletrónica e Automação Naval, Segurança Alimentar e Gestão de Recursos Humanos.
[...] Olga Mariano (OM), presidente da Associação Letras Nómadas, de 66 anos, explica que “com o fim das feiras a atitude perante a educação está a mudar. Há cada vez mais consciência de que é a chave para mudar o seu futuro, e que não perdem a identidade cigana por continuarem a estudar”. Foi depois de enviuvar que OM voltou a estudar primeiro frequentando uma formação para mediadores culturais, até completar o 12º ano. “E nunca me afastei um milímetro da minha cultura. É isso que digo aos pais, que os filhos podem ser tudo aquilo que querem ser sem deixarem de ser quem são”.

No grupo piloto que se formou, TV deixou de se sentir diferente, porque já conheceu Cátia, do Algarve; a Luana, de Viana do Castelo; a Tânia, da Figueira da Foz. E o Francisco, o Benjamim, o José, o Eduardo, o Manuel e o Bruno. Ali é igual na diferença.

“O Opré Chavalé é um projeto fantástico, que quebra o ceticismo da comunidade. Mas é preciso que se prolongue, que passe o programa”, afirma Piménio Teles (PT), membro do Conselho Consultivo do Observatório das Comunidades Ciganas. Ainda não está assegurada a continuidade do projeto, que não avança sem entidades que o financiem. Os alunos têm as propinas e os transportes pagos para o primeiro ano de curso. Mas o apoio acaba aí. “Nenhum destes 11 estaria na universidade sem o projeto. Estes jovens existem, só precisam de ser incentivados”, diz PT. Já há, aliás, uma lista de candidatos em espera. O sucesso do grupo piloto e o passa-palavra
Olga Mariano (OM), presidente da Associação Letras Nómadas, de 66 anos, explica que “com o fim das feiras a atitude perante a educação está a mudar. Há cada vez mais consciência de que é a chave para mudar o seu futuro, e que não perdem a identidade cigana por continuarem a estudar”. Foi depois de enviuvar que OM voltou a estudar primeiro frequentando uma formação para mediadores culturais, até completar o 12º ano. “E nunca me afastei um milímetro da minha cultura. É isso que digo aos pais, que os filhos podem ser tudo aquilo que querem ser sem deixarem de ser quem são”.

No grupo piloto que se formou, TV deixou de se sentir diferente, porque já conheceu Cátia, do Algarve; a Luana, de Viana do Castelo; a Tânia, da Figueira da Foz. E o Francisco, o Benjamim, o José, o Eduardo, o Manuel e o Bruno. Ali é igual na diferença.

“O Opré Chavalé é um projeto fantástico, que quebra o ceticismo da comunidade. Mas é preciso que se prolongue, que passe o programa”, afirma Piménio Teles (PT), membro do Conselho Consultivo do Observatório das Comunidades Ciganas. Ainda não está assegurada a continuidade do projeto, que não avança sem entidades que o financiem. Os alunos têm as propinas e os transportes pagos para o primeiro ano de curso. Mas o apoio acaba aí. “Nenhum destes 11 estaria na universidade sem o projeto. Estes jovens existem, só precisam de ser incentivados”, diz PT. Já há, aliás, uma lista de candidatos em espera. O sucesso do grupo piloto e o passa-palavra.

Artigo do Expresso (2 abr) publicado in A Caravana, n° 80