Enviado por Gilvander Luís Moreira, frei carmelita
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Despejo de famílias sem-terra em Manga, Norte de Minas, acirra conflito agrário. Nota à Imprensa e à sociedade.

Despejo forçado jamais é solução justa e pacífica para grave conflito social, fruto de injustiça agrária.

Despejo de famílias sem-terra em Manga, Norte de Minas, acirra conflito agrário. Nota à Imprensa e à sociedade. BH, 03/04/2014

Belo Horizonte, MG, Brasil, 03 de abril de 2014.

Dia 01 de abril de 2014, dia de recordar os 50 anos do início da ditadura militar-civil-empresarial no Brasil, cerca de cem policiais militares, fortemente armados, sob o comando do Cel. Wellington, do batalhão de PM de Januária, Norte de Minas, despejou 106 famílias de sem-terra que há 17 anos estavam acampadas na Fazenda Baixa Funda, município de Manga. As barracas de lona preta foram destruídas, mas dezenas de casas de alvenaria e barracos de madeira ficaram de pé. Aulus, filho do fazendeiro Thales Dias Chaves, em reunião, disse ao Cel. Wellington que daria prazo até domingo, dia 06/04/2014, para o povo sair pacificamente. Assim, o Cel. Wellington recolheu a tropa e foi embora. Segundo o coronel, ele já tinha sido ameaçado de prisão pelo juiz da Vara Agrária de Minas Gerais, Sr. Octávio de Almeida Neves, caso postergasse mais o cumprimento da liminar de reintegração de posse injusta, inconstitucional e imoral emanada por ele. O fazendeiro Thales possui escritura registrada em Cartório de uma área de 1.448.00 hectares. A fazenda é conhecida na região como parte de terra de ausentes e desconhecidos. Há indícios de que seja, pelo menos em parte, terra devoluta, pois estima-se que a fazenda toda compreenda cerca de 5 mil hectares. Como pode reintegrar na posse dos outros 3 mil hectares se o fazendeiro nem registro sobre essa área tem? Se há fortes indícios de que seja terra devoluta grilada?
Mas ensina a história que despejo forçado jamais resolve de forma justa e pacífica graves problemas sociais como a injustiça agrária que campeia no território brasileiro. Assim, após a polícia ir embora, o filho do fazendeiro, Aulus, acompanhado de um homem com comportamento de jagunço, mandou queimar oito barracos de madeira. E, assim, um crime grave se consumou: oito barracos foram queimados, inclusive com mantimentos dentro. O povo registrou Boletim de Ocorrência e denunciou esse crime ao promotor do ministério Público na cidade de Manga, que se comprometeu a instaurar inquérito para apurar o crime.
A indignação do povo sem-terra se tornou enorme. Dezenas de famílias sem-terra não desistem da posse da terra, pois já são 17 anos de luta. Já passaram por 12 despejos e sempre voltam a ocupar a fazenda Baixa Funda. Há cerca de 600 hectares de plantações. O povo não abre mão de continuar na terra, o que é justo. A tensão é grande na área, tensão causada pelo latifundiário, pela omissão do INCRA que ainda não desapropriou essa fazenda para fins de reforma agrária, pela omissão do Governo de Minas que não resgatou as terras devolutas que lá estão griladas há muito tempo e pela decisão injusta do juiz da Vara Agrária de MG, Octávio de Almeida Neves, que concedeu liminar de reintegração de posse e, inclusive, ameaçou de prisão o Cel. Wellington, caso ele não cumprisse a sua ordem injusta.
Recorreremos à Defensoria Pública de Minas Gerais para que contribua na conquista do direito à terra de mais de 100 famílias.
Repudiamos esse despejo e manifestamos nosso apoio à luta tão árdua, necessária e justa pela libertação da terra das garras dos latifundiários.

Comissão Pastoral da Terra.
Comitê de Apoio à Luta Pela Terra em Manga;
Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Bahia.