É necessária uma conversão urgente e sem medo.
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Leiam esta passagem da Mensagem da Quaresma que nos foi enviada pelo nosso correspondente e amigo Fernando Santos José da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP)

[...] O mundo vive uma profunda crise humanitária decorrente de níveis de pobreza
e privação extremos, desigualdades insustentáveis, guerras e conflitos, perseguições
religiosas, vagas imensas de refugiados, extremismos crescentes. A incerteza e a indecisão
nas atitudes dos líderes, a amorfia das sociedades, põem em causa a indispensável
solidariedade da ação, condicionam o futuro, tornam-no instável e sem
esperança.
Vemos, assim, que a realidade concreta contemporânea espelha, a par de conquistas
sem precedentes do desenvolvimento humano (científico e tecnológico), um
mundo profundamente assimétrico, inaceitavelmente desigual, marcado por níveis
intoleráveis de injustiça e violência, numa rota de desenvolvimento inevitavelmente
insustentável.
Em meados de janeiro de 2016, a ONG Oxfam publicou um relatório sobre
desigualdade (posteriormente discutido em Davos na reunião dos líderes mundiais)
que dá conta de uma economia nada humana (na expressão do Papa Francisco, uma
“economia que mata”). São impressivos os números: 1% da população mundial
possui riqueza igual à que é partilhada pelos restantes 99%; a riqueza de 62 pessoas
super-ricas é equivalente à que é auferida por cerca de metade da população mundial;
todos os dias, uma em cada nove pessoas passa fome. E face ao impressivo
aumento do fosso da desigualdade, só podemos falar de passividade, de indiferença,
perante tamanha injustiça e consequente sofrimento, apesar dos recentemente proclamados
objetivos do Milénio, aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas,
que visam introduzir uma rota para uma sociedade mais justa e enquadrada
numa estratégia de desenvolvimento sustentável.
O nosso País é um reflexo do panorama global aludido, evidenciado por indicadores
que referem a imensa extensão da população portuguesa que vive em situação
de pobreza, os níveis crescentes de desigualdade, e ainda muitas outras situações
que vão deixando para trás tantos e tantas que assim se vão juntando ao crescente
número dos excluídos: as crianças com insucesso educativo, os jovens sem trabalho,
uma parte significativa da população ativa a caminho de situações de desemprego
estrutural, os velhos sem voz, e tantos outros sem acesso adequado à justiça e à saúde,
perante a ineficácia de estratégias e políticas públicas.
Perante este panorama, a C.N.J.P. aderiu à ação concertada anual da rede de
comissões justiça e paz europeias, relativa à temática da Crescente desigualdade e
tributação justa. Essa ação pretende salientar como a desigualdade crescente se
alimenta de lacunas e injustiças dos sistemas fiscais, como a menor tributação dos
rendimentos do capital e os chamados “paraísos fiscais”. Desse modo, são os que
mais rendimentos auferem os que menos impostos pagam. Um fenómeno que também
se verifica em Portugal, mais ainda do que noutros países.

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É necessária uma conversão urgente e sem medo.
É urgente olhar e ser capaz de ver, combater a indiferença e perceber o carácter
tremendo da necessidade da intervenção solidária, sempre solidária, perante a necessidade
do vizinho, o silêncio do velho, a impotência da criança, a invisibilidade da
diferença, a exclusão do estrangeiro, a injustiça da desigualdade.
É urgente não ter medo de olhar e de ver, de ser capaz de prescindir e partilhar,
de amar, de ser compassivo, de viver a misericórdia.