Criamos riqueza quando nos pomos à escuta das pessoas que têm seguido pelos caminhos da miséria
detail_dessin_lam80.jpg

Javier é o pároco da Paróquia San Carlos Borromeo, em Entrevías, em Espanha. Também é membro da “comissão dos moradores” do bairro. Vive no meio de pessoas pobres, convencido de que só com elas poderemos transformar o mundo onde vivemos.

Cada vez me convenço mais de que quando há crises graves, não só económicas, mas também como a que estamos atravessando em Espanha, os investigadores se põem a lançar mais pesquisas sobre a vida das pessoas e ainda mais sobre a das mais pobres. É tudo muito interessante, mas ainda nin- guém conseguiu compreender como é que todos os ensinamentos daí tirados, para além dos conhecimentos específicos e dos programas de cada investigador, irão fazer com que tanta gente saia da miséria.

Alguns de entre nós têm o privilégio de viver com os mais pobres e acho que muitas vezes, para eles, o mundo da pobreza aparece em toda a sua nudez . Diante do pessoal da justiça, dos trabalhadores sociais, dos voluntários de associações e do pároco, os pobres contam constantemente as suas vidas, cujos percursos nos envergonhariam se tivéssemos que os expor publicamente. Nós, que vivemos com esses pobres, podemos aqui contar coisas positivas, graças a uma série de oportunidades e também graças a certas condições familiares, sociais, económicas e culturais. No entanto, se eu tivesse esperança em alguma revolução, seria numa que viesse de baixo. Parece-me, pois, que a riqueza da nossa sociedade só brotará da atenção prestada às pessoas que têm seguido pelos caminhos da miséria. Que nos digam elas primeiro como é que pretendem ser, como se sentem, como nos veem. E encorajo todos os universitários que aqui estão  a propor teses de doutoramento dizendo aos estudantes : “Tentem saber que perceção têm os pobres daqueles que sobre eles investigam, ou daqueles que com eles estão”.

Acredito firmemente que, se uma revolução for um dia possível, será uma revolução que provirá não só do fato de estarmos unidos aos mais pobres, mas sobretudo de eles nos dizerem o que pretendem. Há combates que cada um tem de travar perto de si, lá onde estiver.
Mas esses combates deverão ter uma repercussão global para que este mundo se transforme e possa avançar.
JAVIER B., ESPANHA

Palavras-chave :