Com a minha bicicleta azul
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Carta aos Amigos do Mundo 95

É por necessidade que saímos de casa, quando não há outra hipótese. Bem gostaria de acordar de manhã sabendo onde trabalhar. Antes, eu trabalhava e era bom ter um pagamento fixo. Mas agora, com a crise, para os que não têm diploma, é praticamente impossível arranjar trabalho.
Recebo uma ajuda social, mas não chega para a gente viver.
Ir à cata de ferro-velho passou a ser uma profissão para uma porção de gente. Vejo todos os dias muitas pessoas que estudaram e até têm belos carros a remexer nos caixotes do lixo ou a irem à lixeira.
Eu vou de bicicleta porque a lixeira mais próxima fica muito longe. Se fosse a pé com um carrinho, ia demorar muito, mas, de bicicleta, sobrame tempo para fazer outras coisas e voltar para casa para estar com os meus filhos.
Este modo de ganhar a vida é difícil. Há dias em que as coisas correm bem e posso fazer algumas compras para lá para casa ; mas há outros em que volto de mãos a abanar. Trabalhar com ferro-velho é muito cansativo e requer muito esforço.
Como é difícil sobreviver pelos nossos próprios meios, sem prejudicar ninguém ! Há dias de desespero, que dão vontade de morrer, quando a necessidade é muita e não arranjamos nada. Mas há que andar para a frente, que a nossa vida é essa.

Há gente que nos insulta, que nos provoca, é um inferno. Quando me insultam, faço por não responder, sigo o meu caminho. Um dia, ia de bicicleta e houve um que me cortou o caminho com o carro... Mas, se me tivesse acontecido alguma coisa, como é que eu ia levar de comer para os meus filhos ?
Outras vezes, é o contrário. Um dia, tinha a mão cheia de sangue, e um senhor parou e deu-me um lenço de papel, preocupou-se comigo. Quando alguém tenta ajudar, mesmo que não dê dinheiro, quando alguém se aproxima sem nos conhecer, é como uma luzinha de esperança que reconforta e torna a vida menos dura.
Quando volto para casa ao fim de um dia em que não ganhei nada, é horrível. Nunca se tem a certeza de nada. Muitas vezes, as pessoas deitam coisas fora, mas para as podermos apanhar é preciso esperar bastante tempo. É uma questão de sorte.
Todos devíamos ter mais oportunidades. Eu não sei ler, mas tenho outras qualidades e fui apreciado nas empresas onde trabalhei.
ANTONIO J., ESPANHA

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