Ciganos da Madeira apenas pedem respeito
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A comunidade cigana tem famílias já na 4.ª geração, nascidos e criados cá. Dedicam-se sobretudo ao comércio, muitos deles feirantes no Santo da Serra, que desesperam por melhores condições

FRANCISCO JOSÉ CARDOSO /
MADEIRA /
27 ABR 2017
Quase aos 64 anos de idade, uma mulher, mãe e avó, cigana, filha de ciganos que vieram para a Madeira há mais de 50 anos, ainda vende na Feira do Santo da Serra, sujeita ao frio, à chuva, ao sol, ao vento. A meio do dia de um domingo com clima instável, tinha vendido a primeira peça. Depois de regateado o preço inicial de cinco euros, conseguiu ‘estrear-se’ nas vendas do dia com 2,5 euros, umas meias.
Apesar da vontade, o desânimo só não toma conta dela - mostrou-nos o seu cartão do cidadã portuguesa, mas preferiu não ser identificada - porque tem no ‘sangue’ a perseverança de um povo que vive para sobreviver numa sociedade que, apesar de toda a evolução cultural, continua a olhar de soslaio para esta comunidade singular. São cerca de 50 a 60 fixados e residentes a tempo inteiro na Madeira, mais umas dezenas que vão e vêm conforme as coisas no negócio correm de feição.

“Os meus pais vieram para cá com 13 anos e estão cá enterrados”, atira. “Já nasci cá”. Casou-se cá, tem o marido actualmente acamado, tem filhos cá, uma delas a cuidar do pai, e lá fora, a fazerem pela vida. Tem netos já na escola - onde lembra-se perfeitamente da discriminação que um dos filhos sofreu, ao ponto de o pai ter de ir aos recreios para o miúdo estar mais à vontade -, e na casa deles vivem 10, mas já foram 12. Uma família grande que, contando os parcos apoios sociais que recebe, ela que já devia estar a descansar em casa, tem de fazer negócio, horas em pé e outros sentados “porque o corpo já não pode”.

A força desta mulher de saias longas, cabelo grisalho apanhado atrás e olhar ‘esperto’, só contrasta com o ar cansado e a toalha de praia que tem sobre os ombros para aliviar o frio cortante dessa manhã de Primavera no Santo da Serra, Santa Cruz, Madeira.

Naquela manhã estariam pelo menos três a quatro famílias ciganas na venda, à espera ou atraindo com altos pregões as dezenas de passeantes, entre madeirenses e turistas estrangeiros. Poucos compram e aqueles que o fazem estão à procura de comprar algo, sobretudo roupa. A feira não tem apenas comerciantes de etnia cigana, é certo, mas todos olham para o ‘mercadinho’ de hortaliças, com todas as condições (sobretudo coberto), e perguntam porque pagam menos de renda por mais condições tanto para os comerciantes como para os visitantes e potenciais clientes.

A maioria dos clientes passeia-se pela feira que, actualmente tem mais bancas vagas e descobertas do que ao abrigo da natureza. Os que puderam pagar algum dinheiro, colocaram telhados de zinco. Outros ainda conseguem uns toldos de plástico. O cenário é realmente desolador para um mercado que já teve melhores dias.

Falta acabar as obras há muito prometidas ou, no mínimo, recolocar os toldos que foram para arranjar e até hoje, já se passou tempo sem memória. Já reclamaram junto da Câmara Municipal, há promessas de solução, mas enquanto não pagarem pelo menos um de vários meses em dívida e outro adiantado, nada feito. Não há dinheiro para ‘oferecer’ melhores condições, nem da parte da autarquia nem da parte dos comerciantes, sobretudo porque entendem que pagam muito para quatro dias por mês e por apenas algumas horas nesses domingos de feira. Não ganham para isso.

Parece uma ‘bola de neve’. Sem condições não há clientes, sem clientes não há negócio, nem rendimentos, sem isso, não conseguem pagar a renda e sem esse dinheiro não há obras de melhoria. Nos dias em que não têm de estar na feira, o único poiso fixo, procuram fazê-lo como ambulantes um pouco por todo o lado, mas também nos arraiais que, por esta altura, começam um pouco por toda a ilha.

[...]
Outra mulher, comerciante, cigana, mesmo sem querer ‘dar a cara’, atira: “Isto é uma vergonha para a Madeira. A única feira que há cá, e está nestas condições. Isto não rende, pagamos 50 a 60 euros para estas condições. Não precisamos que nos ajudem, precisamos que nos respeitem. Respeitem todos os feirantes. Se não são os arraiais, coitadinhos de nós, estávamos mortos. O feirante não tem direito a nada, isso é discriminação.”