Artigo enviado por Anselmo Prudêncio do EAPN de Beja
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Monforte é uma localidade do distrito de Portalegre. É pequena, pacata e acolhedora. Veem-se poucas pessoas na rua, as casas estão todas fechadas. O calor também é o que se espera daquelas bandas, não estivessem mais de 30 graus e até estranhávamos. As casas são brancas, caiadas de amarelo e azul, no centro da vila há uma praça simpática e na esplanada só estão dois homens sentados. 

Estamos em pleno centro do município do país que tem maior percentagem relativa de presença de cidadãos de etnia cigana. Segundo o Estudo Nacional Sobre Comunidades Ciganas, a comunidade de etnia cigana em Monforte representa 75,90% da população geral. Quem confirma os dados, mais tarde em conversa com o i,  é o presidente da Câmara, Gonçalo Lagem, de 40 anos e natural da terra. Orgulha-se de sempre ter convivido com a comunidade cigana que está fixada em Monforte há mais tempo do que o próprio. Os últimos números, atualizados pela Pordata em 2011, indicam que no município vivem 3.329 habitantes. Deles fazem parte 26 famílias de etnia cigana na vila de Monforte, 12 em Vaiamonte e quatro em Assumar. 

Dirigimo-nos em primeiro lugar ao clube de futebol da terra, tem as portas abertas mas com um letreiro que avisa que só os sócios podem frequentar o interior do clube. 

Entrámos e sentámo-nos na mesa de um senhor que não se quer identificar. “Falar de ciganos é sempre um assunto polémico e sensível. Eu sou dono de um estabelecimento e não quero confusões”, explica em tom baixo. Pedimos-lhe para   contar as suas histórias. Já alguma vez teve problemas? “As partes positivas de viver numa vila com eles são muito poucas para quem tem contacto diário. A população cigana aqui é enorme, tendo em conta que é um meio tão pequeno. Lido com eles todos os dias, é um bocado ingrato. Nunca aconteceu nada, mas pode vir a acontecer”.

Medo do que pode vir, mas não veio ainda Segundo este adepto do Futebol Clube Monfortense, antigamente as pessoas tinham as casas abertas muito mais tempo, agora fecha tudo cedo porque há medo, “nunca se sabe”, diz em tom preocupado. 

O medo fica-se pela possibilidade de um dia vir a acontecer alguma coisa que nunca aconteceu antes. Pelo que nos contam as pessoas, “nunca houve problemas”. Apenas entre os mais novos acontecem por vezes desacatos mas “gaiatos arranjam sempre confusão, isso é tanto os nossos quanto os de qualquer outra raça. Já não fomos todos gaiatos?”, pergunta o dono de um café central muito frequentado pela comunidade de etnia cigana. “A mim nunca me faltaram ao respeito e quem toma conta deles todos é a dona Bea, a mais velha do acampamento”, diz. Um cliente apoiado na janela que dá para a rua, onde está a beber uma mini, interrompe:  “Lá na piscina estiveram ontem 14 miúdos dos deles, são irrequietos, tive de os pôr na ordem, têm de saber estar não é?”.

A  discussão é amigável, tanto o cliente quanto os donos do café parecem concordar que nunca houve problemas na vila com qualquer cigano. “São gente educada”, concorda a dona do café.

A escola e os gaiatos

No agrupamento de Escolas, falamos com o diretor António Barreira, de 55 anos. Vive em Portalegre, vem todos os dias até

Monforte e já exerce funções na direção há nove anos. As crianças ciganas do município vão à escola, mas a instituição teve de se adaptar para conseguir manter os alunos e os cativar a manterem-se no ativo. Para isso criaram um sistema de intervenção, cujas medidas tiveram como principal foco “a disciplina, o sucesso e a prevenção do abandono escolar”. Entre as várias medidas deste programa, destaca-se uma das que teve mais sucesso: conseguiram atrair para o pré-escolar todas as crianças de etnia cigana a partir dos três anos de idade. “Pareceu-nos que seria mais fácil começar aos três e quatro anos a integração no sistema educativo português. Quando vêm para o primeiro ciclo já se nota que trazem os hábitos de saber estar na sala de aula, de trabalhar”. Em nove anos as várias medidas deste programa têm muitos resultados positivos, já que “o número de alunos no terceiro ciclo é hoje muio maior, embora ainda haja uma parte das meninas que deixa os estudos mais cedo que os rapazes, para começar uma família”. Todos os dados disponíveis apontam para “altos níveis de analfabetismo e absentismo escolar dos ciganos portugueses, mesmo em relação aos 6 anos de escolaridade, o que faz prever tratar-se de uma tarefa difícil a concretização dos 12 anos de escolaridade”, lê-se no Estudo Nacional sobre Comunidades Ciganas. 

Para o diretor do Agrupamento de Escolas de Monforte, onde 80 alunos de etnia cigana estudam, representando um terço do total de alunos, o maior desafio em integrar os estudantes no sistema de ensino centra-se no facto de os pais não terem trabalho na região e, por isso, terem de se deslocar para Espanha e França por algumas temporadas. “Os miúdos vão com eles e perdem imenso tempo de escola”. A escola já viu formarem-se estudantes no ensino profissional e hoje uma ex-aluna, Ana Cristina, é funcionária da escola e mediadora com a restante comunidade. Não há registo de casos de indisciplina de maior gravidade. António Barreira apenas recorda um episódio no início do seu percurso como diretor – “Há o que é normal entre miúdos, sejam de que origem for”, conclui. 

Um acampamento “temporário”

Saímos do Agrupamento com as indicações sobre como chegar ao acampamento onde a maioria das famílias de origem cigana vive. O caminho para o Rossio é de terra batida, há alguns carros velhos parados e muito pó no ar. Do lado direito, cerca de sete barracas geminadas surgem, com escadas improvisadas feitas de tijolo. Um grupo enorme de homens senta-se em roda a conversar. Há crianças descalças, mas só os pés podem estar sujos. As roupas estão muitas vezes a combinar com os olhos claros e o contraste da pele morena. As meninas têm os cabelos bem penteados e soltam gargalhadas enquanto correm. Do lado esquerdo, uma roulote e à entrada uma senhora vestida de negro. Há cães a correr com as crianças. Todos nos olham com desconfiança, passaremos a saber mais tarde que é raro terem visitas. Uma jovem de vinte e quatro anos aborda-nos: “Que é que os senhores querem da gente?” Queremos conhecer a dona Bea. “Está ali na casinha dela, é minha avó”. A dona Bea é a matriarca da comunidade, é ela quem ouve os problemas, quem toma decisões, sabe os nomes de toda gente mas não se lembra das primaveras que já viu nascer. No acampamento é conhecida por Vó Bea, o que faz sentido quando se tem 119 netos e bisnetos.

Nasceu na freguesia de Santo André, em Estremoz, no mesmo ano em que surgia a segunda grande guerra, em 39, onde tantos da sua etnia foram chacinados por serem diferentes, relembra. Recebe-nos ao seu lado, de sorriso estampado no rosto. Continua a sua história. Em gaiata, passou por Ponte de Sor, onde foi criada. Chegou a Monforte aos 13 anos, terra onde o  pai fora batizado, mas para onde não tinha tornado até então.  Aos 78, ainda veste preto, cor que lhe ficará até que se volte a encontrar com o marido, numa dimensão longínqua. Acredita que sim, vai encontrá-lo no céu. “Eu era tão bonita, mas agora sou feia, feia”.

O olhar é triste, meigo e a memória está viva. “Vim para cá com 13 anos, já cá havia ciganos quando chegámos, casei-me e nunca mais saí”. De mãos no queixo relembra a primeira vez que foi mãe. “Peguei numa tesoura, queimei-a para desinfetar, peguei em panos e numa agulha com linhas. Fui ao mato, rasguei-me e tive o meu filho ali mesmo, sozinha. Cortei-lhe o cordão e vim com ele cheio de sangue nos braços”. Adescrição é heróica, as netas ouvem-na com atenção. Vítor, de um mês de idade, está ao colo da mãe, Inácia, mas veio ao mundo num hospital. “As mulheres já não têm de passar por isso, credo” diz a jovem de 25 anos que casou aos 15 anos e tem três filhos. O mais velho com oito anos e o do meio quatro. 

A casinha da avó Bea não é uma casinha, é uma barraca com tijolos e cimento, plásticos e outros materiais que improvisam paredes. Não há chão e há apenas um compartimento que dá para cozinha, sala de estar e quarto de dormir. No acampamento não há casas de banho, todas as pessoas vão ao mato para fazerem as suas necessidades fisiológicas.
 Maria Feliciana Fernandes procura o bilhete de identidade algures enfiado num dos poucos bolsos de plástico de uma carteira muito velha, cheia de papéis e cartões que pelo aspeto já cruzaram décadas. Quando o alcança, lá se lê : Maria Feliciana Fernandes. No lugar da assinatu

“Não queria ser cigana” Inácia, de olhos verde-água, enquanto abana o bebé desabafa para o ar: “Eu quando era pequena não queria ser cigana. As pessoas não gostam de nós nem dos nossos filhos. Por um cigano mau pagamos sempre todos”. Mas a avó não concorda. “Cá para mim, não tenho queixa de ninguém, nem guarda, nem presidente, é gente muito boa. Entro na casa de todos, se me perguntarem, nunca recuso”. E continua o discurso: “Fora com todos os que não sabem respeitar pessoas. E isto já não é Monforte, Monforte era antes. Agora há muitos gaiatos que tratam mal os nossos”. “Acha que é medo do que não conhecem?”, perguntámos. “Os gaiatos são parvos, eu fui criada de uma maneira, estes gaiatos hoje recebem outra educação. Já tenho um filho com 63 anos, são muitos anos a cuidar de gaiatagem. Conto-lhes muitas histórias, o que eu passei e vivi, e é isso”, sorri enquanto olha para os netos Zé, Ana Rita, Íris, Filomena, Francisco, alguns dos muitos netos que chegam e fazem uma roda à volta da Vó Bea. Riem-se quando lhes dizemos que somos jornalistas e que queremos ouvir as histórias da Avó Bea. “Ela só ralha connosco, só briga connosco”, diz um dos mais novos ao que Maria Feliciana responde zangada: “Eh!Brigo para que fiquem educados, vão brincar deixem a vó falar”.

Rossio dos pobres

Neste acampamento, com as ratazanas, as cobras e as baratas, a Avó Bea vive já há 30 anos. Quando cá chegou só havia quatro barracas. Depois foi chegando gente até que a câmara teve de expulsar os que já estavam ali sem ligações familiares. No acampamento hoje vivem 27 casais e respetivos filhos.

Prometeram-lhes em 2001 que era um acampamento temporário. A avó Bea teve direito a casa mas cedeu-a ao filho mais velho e ficou a tomar conta do acampamento.  Algumas das mulheres juntam-se também à plateia que escuta Maria Feliciana. Uma das filhas mais velhas, que já é bisavó comenta connosco: “A vida é difícil. Sem trabalho como é que se vive? Temos de sair, vai tudo para onde dão o que fazer”. A Vó Bea completa: “Sem trabalhar não dá para dar comidinha aos gaiatos. É a apanha da azeitoninha, dos tomates, é o que houver”. “Vão para Espanha trabalhar, para as vindimas, batatas, é o sustento da agricultura”. Um dos filhos de Bea também responde: “Falam do rendimento mínimo mas como é que os ciganos viviam antes do Guterres ter trazido isso?Não há rendimentos mínimos assim há tantos anos caramba”.  No acampamento há quem tenha direito ao Rendimento Social de Inserção, mas segundo explica Carlos Alberto, de 62 anos, filho da matriarca “isso não alimenta a gente. Antigamente davam apoio até de comer, agora nada. Em Elvas fazem isso, acâmara ajuda as pessoas. Aqui temos de ir para fora senão há fome”.

Para uma das autoras do Estudo Nacional sobre Comunidades Ciganas, a ideia de que todos os ciganos portugueses vivem à custa do Estado é “limitada e falsa”. Manuela Mendes considera que o preconceito português para com este grupo é centenário, “esta diferença cultural e étnica, até de parecer físico, fez com que se construísse uma imagem negativa à volta desta comunidade com um contexto histórico muito forte, acabando sempre por ser marginalizado”, explica. Em Portugal, o que está documentado indica que a comunidade cigana terá chegado a território nacional no século XVI, bem na época em que Portugal navegador invadia países para os conquistar, como fez com o Brasil. 

“As medidas e políticas nunca foram muito favoráveis aos ciganos. As coisas mudaram com o 25 de Abril, com a universalidade a nível de políticas de direitos e deveres em que se incluíam obviamente todos os cidadãos, incluindo pessoas ciganas”, diz a investigadora que explica que a entrada para a União Europeia veio permitir maior abertura de políticas, por exemplo, ao nível da habitação.

Eles não se querem integrar”
Na zona do Beato, um grupo de amigos discute a problemática da integração das comunidades ciganas. Luís, designer de 32 anos, cresceu em Tomar e vive agora num bairro de ciganos em Lisboa. “Os meus pais eram comerciantes ambulantes e sempre tiveram problemas com ciganos. Chegaram a apontar-lhes uma garrafa de vidro partido para terem acesso à luz do meu pai”, conta. “No meu bairro há sempre problemas, falta de civismo, tudo destruído”, continua, enquanto um amigo que viveu no Monte da Caparica vários anos intervém: “Eu tive de sair de lá, porque passados tantos anos a viver com eles percebi que nunca iam mudar. Arrancavam portas para ir pedir apoios, havia tiros e mortes e tráfico de droga”. As generalizações apesar de perigosas, são uma constante numa sociedade em que a comunicação social tem um impacto forte na criação de estereótipos. Quando perguntamos aos dois rapazes se não conheciam não-ciganos que faziam o mesmo e famílias ciganas com comportamentos diferentes disseram que sim. 

Em Monforte, as várias famílias ciganas mostravam interesse em integrar-se na sociedade, frequentando cafés e restaurantes na vila. “Só não vamos ao do senhor João, que não nos quer lá”. Ao visitarmos o restaurante, onde almoçamos no dia seguinte, o senhor João explica que uma vez teve uma zaragata porque queria fechar o estabelecimento e os clientes ciganos não queriam ir embora. “Não estavam a consumir, só cá estavam eles, eu queria fechar. Eles têm de se integrar, mas não querem integrar-se nem fazem esforço para se adaptarem às normas desta sociedade”, explicou na cozinha enquanto fritava batatas e estrelava ovos.