Aos 22 anos consegui, enfim, ter papéis de identidade !
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Carta aos Amigos do Mundo 82

Numa sociedade em que a validação dos dados, das  informações, dos acordos e dos compromissos é feita com papéis, o bilhete de identidade passou a ser o documento oficial mais importante para que alguém seja reconhecido e possa aceder ao exercício dos seus direitos.

Quando uma pessoa com uma deficiência física grave vive no alto duma colina sem escadas e, para cúmulo, no seio de uma família de poucas posses e fraco rendimento, os anos podem ir passando, como aconteceu com Anita, sem conseguir obter um bilhete de identidade. Para que ela o conseguisse arranjar aos 21 anos, foi um percurso semeado de obstáculos. Nele participaram numerosas pessoas cheias de boa vontade e também certas instituições, como o Posto de Primeiros Socorros e o Hospital de Traumatologia.

O percurso teve duas etapas : a primeira foi a obtenção do cartão de inscrição no CONDAIS para as pessoas com uma deficiência.

Foi preciso fazer múltiplas visitas médicas para definir precisamente e com exatidão a gravidade e as causas de uma deficiência evidente à primeira vista. Foi preciso ir a uma porção de hospitais... muito tempo e também bastante dinheiro que bastantes pessoas investiram neste caso. As subidas e descidas para chegar à casa de Anita no alto da colina com ela às costas eram penosas e perigosas e, muitas vezes, era preciso esperar várias horas antes que alguém que pudesse lá ir acabasse por chegar.

Foram precisos muitos meses, telefonemas constantes e visitas insistentes para que as coisas avançassem. Entretanto, paralelamente, houve algumas vitórias : Primeiro, a oferta de uma cadeira de rodas que não só facilitou as deslocações, como diminuiu o seu isolamento. E depois, o cartão de deficiente.

Quando a primeira etapa foi ultrapassada, a segunda – a obtenção do bilhete de identidade – foi menos difícil, mas muito mais longa. A implicação de Anita e de sua família foi muito importante nesta etapa. A alegria da jovem quando enfim teve entre suas mãos o bilhete de identidade foi imensa, e a nossa satisfação também. Uma emoção indescriptível.

Foi um passo importante para ela se afirmar na vida, embora ainda haja muito que fazer. E ainda restam duas perguntas : como é que uma pessoa sem recursos e sem apoio poderia realizar uma diligência como esta, funfamental para qualquer cidadão? Todos terão o mesmo acesso à informação e a mesma atenção? Não dependerá tudo do interlocutor, não será tudo uma questão de sorte?

MAITE C., PÉROU
 

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