“O que partilho convosco sai-me do coração”
image_cameroun.png

Tudo quanto é pobreza, toda e qualquer pessoa à margem da vida, eu vou procurar e implicar-me com ela. Meu trabalho é muito simples : vou por esses bairros pobres, ando, ando... geralmente os pobres não são recenseados mas a gente encontra-os sempre.
O que eu quero é que todos tenham uma certa dignidade, que se mantenham de pé. É um trabalho de presença. Quando vou ter com eles, digo sempre : “Não tenho nada para vos dar, quero só dizer que vocês são importantes para mim. Se há outros que vos desprezam, saibam que há uma pessoa que está ao vosso lado e que vos aprecia”. É muito importante. O que conta é a presença, estar junto. Isso é essencial para os pobres. Eles acham que são amaldiçoados e é preciso contestar isso, incutir otimismo : “Nada está perdido, uma vida diferente é possível”.

As atitudes que cultivo são : presença, escuta, valorização das capacidades, respeito. Os pobres falam muito, têm muito que nos dizer. Geralmente ninguém os ouve, mas eu não conto as horas que passo com eles. Quando os vou visitar, sentamo-nos, falamos, falamos... Tento mostrar-lhes que, apesar de tudo, é possível ter uma vida diferente, que eles não são o lixo deste mundo. Isto é difícil porque eles dizem : “E como é que vamos sair desta desgraça ?” E é verdade, aquelas famílias nem sequer têm de comer... Quando eles perguntam : “Como é que vamos sair desta desgraça ? Diga-nos !”, o risco é dizer : bom, vou deixar-vos algum dinheiro. Mas... e depois ?

Proponho-lhes muitas vezes o seguinte exercício : “Vocês têm qualidades, vocês é que poderão sair dessa situação em que estão. A pobreza não é uma maldição, é um estado de vida que pode acontecer a qualquer um. Há pessoas que já foram ricas e que hoje são pobres. Vocês têm capacidades”. E digo depois : “Olha lá, tu tens qualidades, não tens ?” “Tenho”. “Então diz-me dez qualidades que tu achas que tens. Só 10”. É um trabalho difícil de introspeção mas que ajuda a valorizar a pessoa : se tens capacidades, aptitudes, qualidades, então tu podes. Ora, geralmente eles dizem : “Não, ouça lá, são os outros que nos deveriam dizer isso”. E eu digo : “Não, tu é que podes, olha bem para ti, diz lá o que és capaz de fazer”. E é aí que a pessoa começa a dizer : “Bem, acho que posso fazer isto, que sou assim, que sei aquilo...”. E eu agarro numa das qualidades mais importantes. O desenvolvimento dos potenciais é muito importante. Ter um olhar positivo sobre si próprio é uma alavanca muito forte que nos dá força para nos ultrapassarmos.
Respeitem os pobres como eles são e não venham dar-lhes lições. Creio que o exemplo diz mais do que as palavras.

BLAISE N., CAMARÕES

Blaise N., Cameroun