“Neste 17 de Outubro, ousemos a justiça! Ousemos a paz!”
guatemala
Carta aos Amigos do Mundo 78

Por toda a parte se levantam hoje novos muros. Ali, uma alta fronteira de betão separa dois povos tornando quase impossível a circulação e os encontros das pessoas; aqui, barras de aço numa zona industrial que se vão fechar para impedir a instalação de pessoas que não têm mais nenhum lugar para onde ir. Onde quer que estejam, estes muros são uma vergonha para quem os constrói, e asfixiam os que deles são vítimas. Feitos para garantir a segurança de alguns, estas separações condenam muitos outros à insegurança, ao encarceramento, a uma vida errante, à miséria. Reduzem a nada o reconhecimento mútuo que precede toda e qualquer construção comum. Todos saem a perder.

No entanto, dos dois lados destes obstáculos intransponíveis, muitas vezes correndo muitos riscos, há mulheres, homens, jovens, e até crianças que inventam brechas, abrem janelas, propõem aos do outro lado encontros, festas, onde cada um será sempre para o outro um convidado a conhecer, alguém em busca de justiça, sem que
ninguém venha impor a sua própria maneira de viver ou a sua crença.

Por vezes, a mobilização de milhares de pessoas, das mais humildes às mais prestigiosas, não basta. A esperança, tão frágil, apaga-se, e sentimo-nos esmagados pela pergunta: “Para quê toda esta mobilização? Para quê? Já que abrigados atrás dos seus muros feitos de leis, de regulamentos e de certezas, os poderosos não querem nem ver, nem ouvir, nem partilhar?” Onde ir então buscar coragem para voltar a tentar ações solidárias, sem cair numa violência que faria nascer outras violências e esmagaria outras vidas inocentes? Nesta época particularmente marcada por acontecimentos que destroem a fraternidade, onde ir buscar a energia e o desejo de viver em conjunto e em paz, uma energia mais forte do que o medo daquele que é diferente, mais forte do que a desconfiança em relação aos que vivem de um modo que nos parece estranho, mais forte do que a rejeição de todos os que vivem de expedientes, simplesmente por não poderem fazer de outra maneira?

“Ousemos a justiça! Ousemos a paz!” exclamou há trinta anos o Padre Joseph Wresinski. Este desafio continua a inspirar o Movimento ATD Quarto Mundo, que não se cansa de suscitar, juntamente com muitas outras pessoas, milhares de encontros entre mundos que se ignoram, encontros que acabam por reunir multidões, traçando dia após dia uma história liberta dos poderes e dos saberes monopolizados, das falsas seguranças, uma história cujos principais inspiradores são os que sofrem com todas as crises. Ousemos aqueles encontros que fortalecerão a nossa energia, a nossa coragem e as nossas ambições.

Eugen Brand , Delegado General
do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo