“Não abandonemos ninguém”
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Carta aos Amigos do Mundo 85

As famílias dizimadas pelo furacão Haïyan, que buscam angustiadamente os desaparecidos e que se entreajudam para continuarem de pé, fazem-nos pensar em todos aqueles cujas vidas vão sendo constantemente destruídas e que enfrentam a adversidade com coragem. Recentemente, estive na região parisiense com famílias que vivem numa preocupação constante, pois vão ser obrigadas a partir do bairro onde se tinham refugiado após, muitas vezes, longos anos de errância. As casas vetustas onde vivem vão ser demolidas, mas nenhuma proposta durável de substituição lhes foi feita. A cidade rejeita-as pela sua pobreza e gostaria que elas se fossem embora, mas para onde ? Para não cederem ao desespero, elas mobilizam-se e organizam-se, esforçando-se por não abandonar aqueles que tantas dificuldades acabam por desgastar.

A violência da miséria é intolerável E é também violenta a maneira como se ignora e até se nega a inteligência, a experiência e a coragem daqueles que resistem dia após dia, quando é verdade que os seus saberes e a sua experiência poderiam orientar o mundo de forma pertinente e radical, para que todos pudessem viver juntos, respeitando a dignidade de cada um.

“A minha vida é muito difícil, é verdade, mas preocupo-me muito com aqueles que não vemos, que nem sequer fazem parte das estatísticas da pobreza. A prioridade é irmos ter com eles.”Esta frase foi dita por um pai de família de La Paz durante as reuniões de avaliação do impacto dos OMD (Objetivos do Milénio para o Desenvolvimento) que o Movimento ATD Quarto Mundo organizou com mais de 2000 pessoas em 12países diferentes.

Em Bangui, há jovens conhecidos nossos que, apesar da insegurança do país e de todas as dificuldades, continuam a ir ter com as crianças dos bairros mais abandonados para que, graças aos livros, as suas inteligências continuem a desenvolver-se. Como estes jovens se empenham e se arriscam! Como são indispensáveis para que a sociedade se possa construir com todos os que a constituem!

Na Suíça, uma mulher que vive enfrentando humilhações e privações, disse-nos que tinha medo que a luta pela erradicação da pobreza se transformasse numa luta contra os pobres, em nome do progresso...

As recomendações das pessoas confrontadas com a grande pobreza, tanto no Norte como no Sul, que participaram nos trabalhos de avaliação supracitados, concordam com o Secretário Geral das Nações Unidas quando este afirma no relatório intitulado “Uma vida digna para todos” : os objetivos fixados pela comunidade internacional para o pós 2015 deverão levar a que ninguém seja abandonado! E isso só será possível se aqueles que têm experiência da grande pobreza forem ouvidos prioritariamente.

Isabelle Perrin, Delegada Geral
do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo
 

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