«Como se tivessem sido riscadas do mapa do planeta»
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Carta aos Amigos do Mundo 80

“A miséria é uma violência. Romper o silêncio. Construir a paz”. Estas três frases constituem o programa de uma pesquisa feita pelo Movimento ATD Quarto Mundo em 25 países. Os participantes eram pessoas que viviam situação de grande pobreza e também pesquisadores do mundo universitário. Empenhados num trabalho de “Entrecruzamento de conhecimentos e saberes”,todos eles trabalharam durante três anos em conjunto. As suas conclusões não deixam dúvidas: “Quando há miséria, há também injustiças e violências, e em todos os sentidos”.

Primeira violência: As nossas sociedades esquecem-se muito depressa de tudo o que as famílias têm vindo a sofrer de geração em geração. Há crianças, jovens e adultos desprezados e tratados “como se não fossem seres humanos”.Há bairros, aldeias e comunidades inteiras abandonadas pela vida económica, social e ambiental “como se tivessem sido riscadas do mapa do planeta”.

A segunda violência é institucional, provocada por políticas que se contentam com a redução da pobreza, como por exemplo os Objetivos do Milénio para o Desenvolvimento. Ora, seria necessário lançar políticas globais baseadas em todos os Direitos Humanos.
E há finalmente a violência que consiste na ignorância da coragem e dos saberes de todos os que lutam para resistir à miséria, e que tentam, dia após dia, construir um mundo de paz à sua volta –contributo essencial dos mais pobres para a paz no mundo. A pesquisa que foi feita põe em evidência a que ponto este contributo é ignorado e não reconhecido!

 É por isso que é urgente “Romper o silêncio”. Mas não erguendo-nos uns contra os outros e provocando ainda mais violência. Criando, sim, as condições necessárias para realizar encontros, onde o fato de refletir, agir e viver em conjunto passe a ser possível para todos.

O Dia Mundial da Erradicação da Miséria é como uma grande janela aberta para este estaleiro global que já está em marcha! O tema do próximo 17 de Outubro, inspirado pelos trabalhos realizados nestes últimos anos, é um incentivo formidável. Chama-se ele: “Acabar com a violência da miséria: apoiar-se nas capacidades de todos para construir a paz.”

Mais do que do seio dos compromissos obtidos no Rio + 20, é do seio deste estaleiro, que une cada vez mais pessoas com os seus mais variados empenhos e inteligências, que a paz irá brotar. Para além de todas as fronteiras visíveis e invisíveis, esta paz é o mais precioso dos recursos e dos bens comuns de todo o planeta. Temos a responsabilidade de o transmitir às gerações futuras.

Eugen Brand
Delegado Geral do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo

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