« Era com a coragem dos nossos pais que enchíamos a barriga »
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Carta aos Amigos do Mundo 83

Em Uagadugu, todos ouviram as palavras de Fatimata : “Muitas vezes não tínhamos nada para comer, nem sequer ao jantar. Mas, apesar de tudo, íamos sempre para a escola. E eu sei que era a coragem dos nossos pais que nos enchia a barriga. Sem isso, não teria sido possível”. Foi no mês de março passado, durante um dos seminários internacionais em que alguns membros do Movimento ATD Quarto Mundo trabalharam com parceiros seus sobre a avaliação do impacto dos Objetivos do Milénio para o Desenvolvimento. Esse trabalho foi realizado com a participação de famílias vivendo em situação de grande pobreza, que contribuíram para a elaboração de propostas construtivas, a fim de acabar com a violência da miséria. E foi a educação que apareceu como principal preocupação.

Tanto no norte como na sul do globo, as famílias mergulhadas na grande pobreza acordam aflitas cada manhã, sem saberem como enfrentar as urgências do dia-a-dia, e também com uma angústia constante : quem irá associar-se com elas, quem as apoiará nos esforços que fazem para que os filhos possam aprender, possam existir para a comunidade onde vivem, façam mesmo parte do seu país e do mundo, e contribuam para o futuro de todos ?

Tanto no Burquina Faso, como noutros encontros, na Bélgica ou nas Filipinas, os participantes lembraram que o pior de tudo o que as crianças mais pobres sofrem é que, na maioria dos casos, a escola as põe de lado achando que elas nunca chegarão a lado nenhum. Para além da fome, dos alojamentos indignos, das ameaças de expulsão, do dinheiro que não chega regularmente e da falta de papéis de identificação, é isso que destrói a confiança e que as convence de que são incapazes de aprender. A coragem e a experiência de seus pais são menosprezados, suas opiniões não são respeitadas e não interessam ninguém.
E é assim que vai aumentando o fosso onde caem e se perdem tantas crianças que tanto gostariam de desenvolver e partilhar sua inteligência, sua criatividade e sua amizade com todas as outras.

No próximo Dia 17 de Outubro, Dia Mundial da Erradicação da Miséria, reafirmemos todos juntos que é apoiando-nos na experiência e nos saberes das crianças, jovens e adultos que dia após dia vão resistindo à pobreza que os projetos e as políticas elaborados para acabar com a miséria devem ser pensados, lançados e avaliados.

Isabelle Perrin,
Delegada Geral do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo
 

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