« Aprender a construir espaços de encontro »
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Carta aos Amigos do Mundo 79

A miséria é o resultado da falta de encontros entre aspessoas vivendo numa grande pobreza e aquelas que nunca estiveram nessa situação. É preciso pois aprender a construir espaços de encontro permanentes, já que ignorar e não aproveitar a experiência e a inteligência das pessoas que vivem na miséria é um desperdício que não podemos aceitar. E é também uma violência para com a humanidade que a impede de realizar os seus ideais de vida comum em paz e de justiça.

Para respeitar a elaboração do pensamento de cada indivíduo, é preciso tempo e espaços onde não haja sempre alguém a terminar as frases daqueles que têm dificuldade em fazê-lo; espaços onde nunca se interrompa a reflexão de alguém; espaços onde ninguém pretenda reformular uma ideia que possa parecer confusa; espaços onde não se roube uma ideia a ninguém; espaços onde ninguém tenha medo dos silêncios necessários à reflexão e à compreensão. Descobrir que somos todos capazes de nos entendermos é uma fonte de profunda alegria e de confiança para todos aqueles e aquelas que se investem no cruzamento de saberes.

Perante tantas famílias que são, hoje como ontem, desfeitas, deslocalizadas, deportadas, forçadas ao exílio, ou que então, na maior indigência, são consideradas como estrangeiras dentro do seu próprio país. Perante tantas famílias que desaparecem da superfície da terra sem que a sua inteligência, o seu sofrimento e os seus esforços, a sua perturbação e as suas esperanças, deixem o mínimo rasto, devemos lutar para que os nossos projetos sejam projetos de reatamento familiar e de transmissão de geração a geração, para que os filhos possam resistir à violência, graças ao conhecimento e aprendizagem dos esforços quotidianos dos pais.

Como num celeiro onde guardamos cuidadosamente as sementes em previsão de dias de escassez, devemos preservar todas as histórias de resistência à violência da miséria, todas as histórias de coragem para instaurar a paz. Redobremos de esforços, juntamente com as pessoas e grupos humanos menos escutados, para que as gerações futuras possam ir buscar nas gerações precedentes a força e a inspiração necessárias para criar alianças e para terem paz nos períodos mais duros das suas existências.

Eugen Brand, Delegado Geral
do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo
 

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